26 de julho de 2012

Encontre Sua Grandeza

Comercial da Nike (2012)

Ler devia ser proibido - Guiomar de Grammont


“A pensar fundo na questão, eu diria que ler devia ser proibido.
Afinal de contas, ler faz muito mal às pessoas: acorda os homens para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem. A leitura induz à loucura, desloca o homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social. Não me deixam mentir os exemplos de Don Quixote e Madame Bovary. O primeiro, coitado, de tanto ler aventuras de cavalheiros que jamais existiram meteu-se pelo mundo afora, a crer-se capaz de reformar o mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e ao pobre Rocinante. Quanto à pobre Emma Bovary, tomou-se esposa inútil para fofocas e bordados, perdendo-se em delírios sobre bailes e amores cortesãos.
Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente. Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram. Sem a leitura, ainda, estaria mais afeito à realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquecê-la com cabriolas da imaginação.
Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer. Mas para que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas executar ordens? Se o que deve, enfim, é fazer o que dele esperam e nada mais?
Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie atalhos para caminhos que devem, necessariamente, ser longos. Ler pode gerar a invenção. Pode estimular a imaginação de forma a levar o ser humano além do que lhe é devido.
Além disso, os livros estimulam o sonho, a imaginação, a fantasia. Nos transportam a paraísos misteriosos, nos fazem enxergar unicórnios azuis e palácios de cristal. Nos fazem acreditar que a vida é mais do que um punhado de pó em movimento. Que há algo a descobrir. Há horizontes para além das montanhas, há estrelas por trás das nuvens. Estrelas jamais percebidas. É preciso desconfiar desse pendor para o absurdo que nos impede de aceitar nossas realidades cruas.
Não, não dêem mais livros às escolas. Pais, não leiam para os seus filhos, pode levá-los a desenvolver esse gosto pela aventura e pela descoberta que fez do homem um animal diferente. Antes estivesse ainda a passear de quatro patas, sem noção de progresso e civilização, mas tampouco sem conhecer guerras, destruição, violência. Professores, não contem histórias, pode estimular uma curiosidade indesejável em seres que a vida destinou para a repetição e para o trabalho duro.
Ler pode ser um problema, pode gerar seres humanos conscientes demais dos seus direitos políticos em um mundo administrado, onde ser livre não passa de uma ficção sem nenhuma verossimilhança. Seria impossível controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam. Se todos se pusessem a articular bem suas demandas, a fincar sua posição no mundo, a fazer dos discursos os instrumentos de conquista de sua liberdade.
O mundo já vai por um bom caminho. Cada vez mais as pessoas lêem por razões utilitárias: para compreender formulários, contratos, bulas de remédio, projetos, manuais etc. Observem as filas, um dos pequenos cancros da civilização contemporânea. Bastaria um livro para que todos se vissem magicamente transportados para outras dimensões, menos incômodas. E esse o tapete mágico, o pó de pirlimpimpim, a máquina do tempo. Para o homem que lê, não há fronteiras, não há cortes, prisões tampouco. O que é mais subversivo do que a leitura?
É preciso compreender que ler para se enriquecer culturalmente ou para se divertir deve ser um privilégio concedido apenas a alguns, jamais àqueles que desenvolvem trabalhos práticos ou manuais. Seja em filas, em metrôs, ou no silêncio da alcova… Ler deve ser coisa rara, não para qualquer um.
Afinal de contas, a leitura é um poder, e o poder é para poucos.
Para obedecer não é preciso enxergar, o silêncio é a linguagem da submissão. Para executar ordens, a palavra é inútil.
Além disso, a leitura promove a comunicação de dores, alegrias, tantos outros sentimentos… A leitura é obscena. Expõe o íntimo, torna coletivo o individual e público, o secreto, o próprio. A leitura ameaça os indivíduos, porque os faz identificar sua história a outras histórias. Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do Outro. Sim, a leitura devia ser proibida.
Ler pode tornar o homem perigosamente humano.”

Quando você pensar em desistir...


22 de julho de 2012

O que faz você feliz? - Seu Jorge


A lua, a praia, o mar,
Uma rua, passear, 
Uma dança, um beijo,
Ou goibada com queijo?
Afinal, o que faz você feliz?
Chocolate, paixão, dormir cedo e acordar tarde,
Arroz com feijão, matar a saudade,
O aumento, a casa, o carro que você sempre quis,
Ou são os sonhos que te fazem feliz?
Dormir na rede, matar a cede, ler,
Ou viver um romance
O que faz você feliz?
Um lápis, uma letra,
Uma conversa boa, um cafuné, 
Café com leite, rir atoa,
Um pássaro, um parque, um chafariz,
Ou será o choro que te faz feliz? 
A pausa pra pensar, sentir o vento, 
Esquecer o tempo, o céu, o sol, um som, 
A pessoa ou o lugar?


Agora me diz, O que faz você feliz?

19 de julho de 2012

É o amor - Chico Xavier

Vida: É o amor existencial.


Razão: É o amor que pondera.


Estudo: É o amor que analisa.


Ciência: É o amor que investiga.


Filosofia: É o amor que pensa.


Religião: É o amor que busca a Deus.


Verdade: É o amor que eterniza.


Ideal: É o amor que se eleva.


Fé: É o amor que transcende.


Esperança: É o amor que sonha.


Caridade: É o amor que auxilia.


Fraternidade: É o amor que se expande.


Sacrifício: É o amor que se esforça.


Renúncia: É o amor que depura.


Simpatia: É o amor que sorri.


Trabalho: É o amor que constrói.


Indiferença: É o amor que se esconde.


Desespero: É o amor que se desgoverna.


Paixão: É o amor que se desequilibra.


Ciúme: É o amor que se desvaira.


Orgulho: É o amor que enlouquece.


Sensualismo: É o amor que se envenena.


Finalmente, o ódio, que julgas ser a antítese do amor, 
não é senão o próprio amor que adoeceu gravemente.

Desperte-se!


14 de julho de 2012

Se amar fosse fácil...

Se amar fosse fácil,
Não haveria tanta gente amando mal, 
Nem tanta gente mal amada. 

Se amar fosse fácil, 
Não haveria tanta fome, 
Nem tantas guerras, 
Nem gente sem sobrenome. 

Se amar fosse fácil, 
Não haveria crianças nas ruas sem ter ninguém, 
Nem haveria orfanatos, 
Porque as famílias serenas adotariam mais filhos, 
Não haveria filhos mal concebidos, 
Nem esposas mal amadas. 

Se amar fosse fácil, 
Não haveria assaltantes 
E as mulheres gestantes não tirariam seu feto, 
Nem haveria assassinos, 
Nem preços exorbitantes 
Nem os que ganham demais, 
Nem os que ganham de menos. 
Se amar fosse fácil, 
Nem soldados haveria, 
Pois ninguém agrediria, 
No máximo, ajudariam no combate ao cão feroz. 

Mas, o amor é sentimento que depende de um "eu quero", 

seguido de um "eu espero"
E a vontade é rebelde, o homem, 
Um egoísta que maximiza seu "eu".

Por isso, o amor é difícil. 
Mas, não se ama por ser fácil, 
Ama-se porque é preciso!

Não Descartes isso


13 de julho de 2012

A morte - Pedro Bial

Assisti a algumas imagens do velório do Bussunda, quando os colegas do Casseta & Planeta deram seus depoimentos. Parecia que a qualquer instante iria estourar uma piada. Estava tudo sério demais, faltava a esculhambação, a zombaria, a desestruturação da cena. Mas nada acontecia ali de risível, era só dor e perplexidade, que é mesmo o que a morte causa em todos os que ficam. 


A verdade é que não havia nada a acrescentar no roteiro: a morte, por si só, é uma piada pronta. Morrer é ridículo. Você combinou de jantar com a namorada, está em pleno tratamento dentário, tem planos pra semana que vem, precisa autenticar um documento em cartório, colocar gasolina no carro e no meio da tarde morre. Como assim? E os e-mails que você ainda não abriu, o livro que ficou pela metade, o telefonema que você prometeu dar à tardinha para um cliente? 

Não sei de onde tiraram esta idéia: morrer. A troco? Você passou mais de 10 anos da sua vida dentro de um colégio estudando fórmulas químicas que não serviriam pra nada, mas se manteve lá, fez as provas, foi em frente. Praticou muita educação física, quase perdeu o fôlego, mas não desistiu.


Passou madrugadas sem dormir para estudar pro vestibular mesmo sem ter certeza do que gostaria de fazer da vida, cheio de dúvidas quanto à profissão escolhida, mas era hora de decidir, então decidiu, e mais uma vez foi em frente. De uma hora pra outra, tudo isso termina numa colisão na freeway, numa artéria entupida, num disparo feito por um delinquente que gostou do seu tênis. 

Qual é? Morrer é um cliche. Obriga você a sair no melhor da festa sem se despedir de ninguém, sem ter dançado com a garota mais linda, sem ter tido tempo de ouvir outra vez sua música preferida. Você deixou em casa suas camisas penduradas nos cabides, sua toalha úmida no varal, e penduradas também algumas contas. Os outros vão ser obrigados a arrumar suas tralhas, a mexer nas suas gavetas, a apagar as pistas que você deixou durante uma vida inteira. 

Logo você, que sempre dizia: das minhas coisas cuido eu. Que pegadinha macabra: você sai sem tomar café e talvez não almoce, caminha por uma rua e talvez não chegue na próxima esquina, começa a falar e talvez não conclua o que pretende dizer. Não faz exames médicos, fuma dois maços por dia, bebe de tudo, curte costelas gordas e mulheres magras e morre num sábado de manhã. Se faz check-up regulares e não tem vícios, morre do mesmo jeito. Isso é para ser levado a sério? 

Tendo mais de cem anos de idade, vá lá, o sono eterno pode ser bem-vindo. Já não há mesmo muito a fazer, o corpo não acompanha a mente, e a mente também já rateia, sem falar que há quase nada guardado nas gavetas. Ok, hora de descansar em paz. Mas antes de viver tudo, antes de viver até a rapa? Não se faz. 

Morrer cedo é uma transgressão, desfaz a ordem natural das coisas. Morrer é um exagero. E, como se sabe, o exagero é a matéria-prima das piadas. Só que esta não tem graça.